Proteção Civil

Alterações climáticas e os seus efeitos nos incêndios florestais

Blog Incurso José Fernando Alves

Alterações climáticas e os seus efeitos nos incêndios florestais

Prevenir para proteger Operacionais, Populações e o Ambiente

As transformações que temos estado a assistir, que resultam das alterações climáticas, têm potenciado incêndios florestais com outras características desafiantes, que nos trazem logo à partida, um conjunto novo de desafios e preocupações recentes, para 3 áreas fundamentais, ou seja, para a Saúde Pública, para área da Ação Social e naturalmente, para área da Proteção Civil.

Esta trilogia de novos desafios e de novas preocupações, agora acrescidas face à nova realidade climática que temos estado a observar nos últimos anos, constatamos que a forma acentuada como os incêndios florestais extremos têm colocado em perigo a saúde pública e naturalmente as populações.

Importa também, refletir sobre os efeitos que estas mudanças têm sobre os operacionais, sobre as populações e o próprio ambiente e, com isto, percebermos como é que se deve articular uma nova atitude de prevenção e uma nova atitude de reforço na resposta operacional, e qual deve ser a resposta para operacionalizar soluções ajustadas a estas novas realidades.

Perante estes novos desafios, temos de identificar as suas principais preocupações, identificar os vetores de análise, designadamente: os efeitos, os desafios, os impactos e as soluções, que se manifestam no ambiente, nas populações, nos operacionais, na saúde, na segurança e na resposta ajustada à mudança.

Estamos, portanto, perante uma nova forma desafiante de interpretar e intervir nos incêndios florestais, relativamente aquilo que são os seus efeitos potenciados pelas alterações climáticas.

Podemos concluir, que do ponto de vista dos riscos para a saúde pública, os incêndios, cada vez mais complexos e extremos, libertam cada vez maiores quantidades de partículas e gases tóxicos no ar, que afetam a saúde pública, especialmente para as pessoas com condições respiratórias mais débeis.

Face às características acentuadas da contaminação, que se propagam para grandes distâncias, inevitavelmente têm efeitos muito nefastos na saúde pública e de uma forma particular, nas pessoas identificadas como grupos-alvo, mais fragilizados do ponto de vista da saúde.

Por outro lado, constatamos cada vez mais a perda acentuada da biodiversidade, pois, os incêndios extremos levam à uma perda mais significativa e com mais dificuldades de recuperação de diferentes espécies, quer de animais, quer de plantas, quer na destruição de um conjunto de ecossistemas fundamentais para o equilíbrio da nossa biodiversidade.

Cada vez mais, a rápida recuperação da normalidade das áreas afetadas pelos riscos potenciados pelas alterações climáticas, e no caso concreto dos incêndios extremos, apresentam dificuldades que se vêm acentuado. Estes desequilíbrios e estes impactos que têm efeitos na economia, especialmente nas comunidades que dependem da agricultura, da silvicultura e do turismo, ultimamente muito acentuados, começa a ser cada vez mais difícil fazer uma recuperação sustentada e equilibrada face ao custo-benefício do risco.

Estamos, perante desafios mais acentuados para a Saúde Pública, para a Ação Social e para a Proteção Civil e, com isto, devemos refletir sobre 3 aspetos em que devemos de facto apostar cada vez mais, designadamente:

– A prevenção e a preparação, pois é fundamental desenvolver estratégias integradas de prevenção e preparação, para minimizar o impacto das alterações climáticas e dos incêndios florestais, designadamente nas populações, no ambiente e nos operacionais, no que à proteção da saúde diz respeito;

– Uma resposta mais rápida, mais eficaz e eficiente, em planeamento antecipado, assente naquilo que é a premissa de uma proteção civil preventiva. Uma resposta integrada rápida e eficaz, para lidar com os efeitos das alterações climáticas e dos incêndios, que hoje se comportam de forma muito mais extrema, muito mais perigosa, muito mais desafiante, situação que no passado recente não estávamos habituados;

– A colaboração e coordenação, assente na base da preparação e treino conjunto. Aqui é fundamental promover a cooperação e a coordenação integrada entre as diferentes entidades envolvidas, quer as entidades da Saúde Pública, quer as entidades de resposta da Ação Social, quer na resposta da Proteção Civil, para que em conjunto possam enfrentar os desafios das ações climáticas, com vista a requalificar melhor as diferentes respostas destas três áreas, quando têm de atuar em conjunto.

Temos, assumidamente identificados um conjunto de impactos genéricos, que estas alterações têm estado a colocar à nossa segurança comunitária. O aumento de doenças respiratórias devido às alterações climáticas, o aumento da poluição do ar, o agravamento de doenças respiratórias como a asma, a doença pulmonar obstrutiva crónica e até, a problemas cardíacos graves, para além da propagação de doenças transmitidas por vetores, com mosquitos e carrapatos, são desafios que nos deve mobilizar de forma mais integrada e mais preventiva. Quer uns, quer outros, podem ainda aumentar o risco de propagação de doenças como a malária e o aumento de doenças respiratórias relacionadas com as ondas de calor, que podem levar a um aumento de doenças relacionadas como como a exaustão por calor e o golpe de calor, aumento de stress e desequilíbrios emocionais.

Estamos, pois, perante um conjunto de impactos genéricos, que são mais acentuados face a esta complexidade que os riscos dos incêndios extremos têm gerado, fruto destas alterações climáticas. De facto, temos de pensar em soluções integradas de como resolver estes novos problemas ou pelo menos, os problemas mais acentuados, com soluções que deveriam passar naturalmente por investirmos na motorização e na previsão, ou seja:

– Desenvolver e implementar sistemas de medição e previsão para os efeitos das alterações climáticas na saúde pública, particularmente quando associado especialmente no caso, aos incêndios extremos dos quais resultam graves níveis de poluição e de contaminação a vários níveis.

– Apostar na educação e na consciencialização, ou seja, criar a consciencialização para os riscos potenciados pelas alterações climáticas para a saúde pública e, desenvolver nas pessoas o conhecimento necessário e suficiente para implementarem as medidas de autoproteção adequadas;

– O desenvolvimento de Planos de Emergência, versus Planos de Contingência, para lidar com os efeitos das alterações climáticas na saúde pública, implica também aqui, refletir a necessidade da integração dos planos de ação climática com os planos de emergência, para que efetivamente ambos sejam vistos como solução eficaz e sustentável de uma resposta integrada;

– Promover a colaboração e a coordenação cada vez mais entre os profissionais da área da Saúde Publica, da área da Ação Social e da Proteção civil, para mitigar os efeitos das alterações climáticas, através e, nas ações de prevenção e de respostas integrada. Hoje, não podemos ter cada uma das entidades agir por ato isolado, sendo necessário cada vez mais atuar de forma coordenada numa convergência estreita, que terá de ser precedida naturalmente do seu treino para estas adaptações a novas realidades.

Podemos concluir, que estamos perante desafios a serem desenvolvidos cada vez mais de forma integrada e coordenada, para garantir a segurança e o bem-estar das populações afetadas. Estamos pois, perante novas realidades ou realidades potenciadas, que terão de ter naturalmente também o reforço, nomeadamente naquilo que é a proteção da saúde, pois os incêndios poluem, libertam substâncias químicas tóxicas no ar, que afetam a saúde das pessoas, especialmente aquelas que têm doenças respiratórias e podem em muitos casos levar á morte. Por outro lado, os desafios da resposta de emergência aos incêndios florestais extremos são altamente desafiadores, quando ocorrem especialmente em áreas remotas com acessos difíceis, protelando o desafio integrado do apoio social.

As pessoas quando afetadas pelos incêndios florestais, podem precisar de apoio social, incluindo abrigo, alimentação, assistência médico-sanitária e psicológica, sendo também um desafio integrado que tem a ver com a prevenção e a preparação para os incêndios florestais, que são fundamentalmente desafiadores, especialmente em áreas com recursos mais limitados.

Se estamos perante desafios de forma integrada e coordenada para garantir a segurança e o bem-estar das pessoas afetadas, então temos, também de pensar em soluções integradas, que devem passar primeiro por cooperação e coordenação entre a resposta da Saúde Publica, da Proteção Civil e o da Ação Social, de forma a garantir uma resposta eficaz e integrada.

Os Centros de Coordenação Operacionais Municipais (CCOM), são por excelência o local e o espaço de debate, de preparação e de integração de todas estas colaborações, como solução integrada dos próprios Planos de Emergência com os Planos de Ação Climática. Cada vez mais, os Planos de Emergências devem efetivamente incluir estas novas realidades e desequilíbrios, face às alterações climáticas, de um conjunto de riscos e particularmente este, que exige uma prevenção na antecipação e uma melhor preparação da Resposta e da Recuperação, para que sejam fundamentais para garantir a segurança e o bem-estar das populações afetadas.

O treino (simulacros integrados) e a capacitação dos profissionais de saúde, da proteção civil e do apoio social, são fundamentais para garantir que todos eles estejam preparados para responder aos desafios. O treino e a preparação dão de facto muito trabalho, mas é aqui que se aposta na melhor atitude de resposta para se conseguir ganhar o desafio de socorrer, salvar e proteger. O treino em conjunto, testando cenários ajustados a estas novas realidades, capacitam para um objetivo comum numa ação comum integrada de coordenação. Este é fundamental para garantir em tempo útil, que as pessoas afetadas pelos efeitos possam receber o apoio necessário para se recuperarem.

Hoje, temos tecnologia e inovação capaz de ajudar a potenciar melhores soluções, nomeadamente os drones, sensores e outros instrumentos e aplicativos, podem ajudar a melhorar a resposta aos incêndios florestais e prevenir antes de acontecer. Com o apoio da tecnologia, teremos mais e melhores respostas e mais rápidas, mais eficazes, mais coordenadas, mais ajustadas a estes novos desafios. Estamos também perante desafios futuros, pois as alterações climáticas não vão diminuir, não vão parar, antes pelo contrário, tudo aponta com evidências científicas, para um contínuo agravamento e por isso mesmo, os riscos são cada vez mais potenciados por estas alterações, também obviamente se vão agravar e particularmente, no caso em apreço os incêndios florestais extremos, desafios novos, muito mais desafiadores, nomeadamente o crescimento da população e esta exposta, porque está dispersa pela floresta e pelo interface urbano florestal, que se nos colocam como desafios mais complexos, com os quais devermos saber interpretar e agir.

Importa perante toda esta nova realidade, refletir como proteger e monitorizar a saúde dos operacionais da proteção civil e da população exposta e mais fragilizada.

De facto, temos de encontrar algumas novas respostas para esta problemática. Temos efetivamente de investir nos instrumentos de prevenção da saúde da própria população, que é afetada com a sua exposição ao fumo e às partículas e igualmente, a dos operacionais. Estamos perante grupos vulneráveis, o da população e o dos operacionais. No caso da população que sofre de doenças crónicas, que podem perante esta exposição agravar significativamente a sua saúde e até, no limite, pode levar á morte, urge pois ter o atrevimento de inovar o pensamento preventivo.

Necessitamos da ter instrumentos de gestão integrada, que reúnam informação sensível dos grupos alvos da população que tenham problemas graves de saúde, que podem ser afetados gravemente pela poluição dos fumos e dos gases dos incêndios, que residem em zonas de riscos muito acentuado, permitindo conhecer antecipadamente quem são, onde estão, e que ações terão quer ser desenvolvidas e por quem, para a sua proteção, confinamento e ou evacuação, antes da exposição ao risco e afetação da sua saúde. Esta gestão de informação sobre estes grupos-alvo, deve estar assente no CCOM de forma integrada e partilhada pelos Serviços de Saúde Publica, de Ação Social e da Proteção Civil.

Estamos perante um grande desafio, que é implementar uma nova estratégia de verificação e monotorização, que permita a monitorizar dos riscos para a saúde dos operacionais, assente em instrumentos tecnológicos no Posto Comando para medição em tempo real, que devem de facto refletir esta preocupação e, devem também, refletir uma nova capacidade tecnológica para apoio á tomada de decisão operacional preventiva.

Esta tecnologia, pode e deve, também, ser através de sensores a usar pelos operacionais, que deveriam transportar no seu próprio equipamento, para que essa informação medida em tempo real, possa chegar ao Posto de Comando e permitir por antecipação avaliar o estado e a exposição ao risco de operacionais, mas também das populações afetadas.

A utilização de sensores de medição da contaminação do ar e do próprio solo, devem ser colocados nas viaturas operacionais, ou em alternativa, nas viaturas das Equipas de Reconhecimento e de Avaliação da Situação (ERAS), para que efetivamente possam segurar essa motorização e fornecer em tempo real, informação determinante aos Postos de Comando e aos Centros de Coordenação Operacional Municipal, para que as entidades da Saúde Pública, da Ação Social e da Proteção Civil possam avaliar e ter instrumentos de apoio a uma decisão de antecipação.

Estamos perante um grande desafio, o de pensar diferente e agir numa atitude ajustada ao futuro, face às alterações climáticas e aos seus efeitos gravosos nos riscos potenciados pelas alterações, que nos deve mobilizar no debate científico e técnico, juntando de forma mais interligada as diferentes instituições que têm de intervir.

Na prevenção, na coordenação, na articulação, e na sensibilização e preparação das populações numa visão mais ampla, podemos ganhar este desafio de melhor proteger e socorrer as pessoas, defender o património e o ambiente.

Autor

Especialista em Proteção Civil.